Profanações

Profanações- Giorgio Agamben

Resenha:

Profanações- Giorgio Agamben

Segundo o autor , profano, é aquilo que , de sagrado ou religioso que era, é devolvido ao uso e a propriedade dos homens.

Quer dizer, é aquilo que deixou de ser sagrado , ou ainda, da ausência deste. Perder o sagrado é perder a totalidade de mundo. Digo isso porque profanar significa restituir o uso comum , o que havia sido separado na esfera do sagrado. Tornou-se improfanável, fragmentado, onde o sacrifício, tornou-se mercadoria, como o corpo , a sexualidade, a linguagem, esta na esfera do consumo.

Walter Benjamin discorrendo sobre modernidade disse que, o valor da exposição, quer dizer, o corpo exposto para as câmeras, como um espetáculo, com a perda da aura, banalizando o improfanável. E Marx na oposição, entre o valor de uso e valor de troca,  a exposição vazia do resto, e Nietzsche, com a morte de Deus e nas consequências dessa morte. Diz que a negação do mundo supersensível ( como Kant defendia) e dos valores que o constituem acarreta o esvaziamento do  mundo sensível, que se vê privado de consistência e de razão de ser- niilismo- a vida humana se tornaram caducos.

O presente em que estamos vivenciando as nossas experiências humanas nos mostra a total descentralização do que somos.

O individualismo, a massificação , acabou com nossa subjetividade, liberdade. Nos remete a perda do sagrado, que significa a indigência do tempo.

Mas é exatamente aí, nessa esfera da profanação – na ausência do ser, surge a necessidade do diálogo, é preciso que haja tal perda para se traçar o caminho do sagrado.

Numa linguagem autenticamente trágica, o original, o que está sempre a cria-se, é o surgimento do individual, e é através desses jogos de seduções e de profanações que fotógrafos, cineastas, poetas utilizam-se para expressar e interpretar o nosso modo de viver, da nossa época. A profanação do improfanável é a tarefa política da geração que vem.

Loly Demercian

Resenha do livro Culturas e arte do pós-humano

 livro: Culturas e artes do pós-humano: da cultura das midias a cibercultura

autora: Lucia Santaella

 Resenha: Roseli Conceiçao de Moraes Rojas Demercian

Lucia Santaella, em 1992, lançou o livro Cultura das mídias, e, em 2003, Culturas e artes do pós-humano, em linha de continuidade com a pesquisa iniciada em 1992. Preocupada com o andamento da cultura das mídias e com as profundas transformações na cultura de massa e na Indústria Cultural, Lucia Santaella se propôs a analisar esse processo.

A obra esta dividida em 14 capítulos, sendo que a introdução explana sobre onde surgiu a ideia da continuidade da pesquisa já iniciada em 1992, as preocupações em relação cultura de mídias e sua evolução ate os dias de hoje. É a proposta do livro. Mas o que chama atenção na leitura do livro, é que a autora estabelece uma ligação muito forte com as artes visuais, sendo que uma de suas hipóteses em que se norteou é que o artista sabe das mutações socio-culturais, sem saber que sabe.

Segundo a autora […] “é , de fato, uma espécie de teoria não-verbal e poética que os artistas criam na sua aproximação sensível dos enigmas do real. Temos de prestar atenção no que os artistas estão fazendo. Pressinto que são eles que estão criando uma nova imagem do ser humano no vórtice de suas atuais transformações. São os artistas que tem nos colocado frente a frente com a face humana das tecnologias.”

Sob o titulo de O que écultura, o capitulo 1 discorre sobre a evolução da cultura através do tempo/espaço.

aa675c6affbf53aa682e4c32636e68e68ef3ca71 Dividida em 4 topicos, destaco o topico 4, da semiotica aos estudos culturais. Neste, discute-se a oposicão entre natureza e cultura, propondo níveis de transição entre ambas. Assim, a corrente da semiótica opõe-se ao estruturalismo na medida em que este baseia suas oposições nos critérios de arbitrariedade e convencionalidade dos símbolos.

O capítulo 2 versa sobre a cultura midiática. Dividido em 3 tópicos, traça as transformações da cultura no século XX até a revolução digital. Com o advento da cultura de massas, a partir da explosão dos meios de reprodução técnico-industriais (jornal, revista, fotografia, cinema etc), seguido da onipresença dos meios eletrônicos de difusão (especialmente rádio e televisão), produziu-se um impacto até hoje significativo na tradicional divisão da cultura erudita, culta, de um lado, e da cultura popular, de outro. Essas dificuldades atingiram seu ápice nos anos 80, com o surgimento de novas formas de consumo cultural propiciadas pelas tecnologias do disponível e do descartável: a fotocopiadora, o videocassete, o videoclipe, o videojogo, o controle remoto, o CD e a TV a cabo, todas tecnologias para demandas simbólicas, heterogêneas, fugazes e mais personalizadas.

Segundo Santaella:[…] A cultura midiática propicia a circulação mais fluida e as articulações mais complexas dos níveis, gêneros, e formas de cultura, produzindo o cruzamento de suas identidades. Inseparável do crescimento acelerado das tecnologias comunicacionais, a cultura midiática é responsável pela ampliação dos mercados culturais e pela expansão e criação de novos hábitos no consumo de cultura .

O Capítulo 3 discute Uma visão heterotópica das midias digitais. Dividido em 3 tópicos, discute a adoção do termo “mídias” e “novas mídias”.

O capítulo seguinte, mais longo, Substrato da cibercultura, está dividido em 12 tópicos. Tendo como ponto de partida a cultura de massa, esse capitulo tem como função e finalidade trazer à tona a discussão dos elementos que foram pavimentado o terreno para o surgimento da cibercultura, desenhando as linhas de força da continuidade em relação à cultura das mídias.

Dividido em 4 tópicos, o capítulo sobre as Formas de socialização na cultura digital, trata das complexidades semióticas que as constituem, novos ambientes comunicacionais, as comunidades virtuais, linguagem e constituição do sujeito cultural e as formações psicossociais na era digital.

Artes híbridas, tema do capítulo 6, dividido em 3 tópicos, versa sobre linguagens e meios que se misturam, criando um todo mesclado e interconectado de sistemas de signos que se juntam para formar uma sintaxe integrada. As passagens entre signos, as paisagens sígnicas das instalações e hibridismo digital são discutidas.

Dividido em 6 tópicos, o capítulo 7 desenha um Panorama da arte tecnológica e discute a era pós-moderna, todas as artes que se confraternizam (desenho, pintura, escultura, fotografia, vídeo, instalação) e todos seus híbridos. O artista pode dar a qualquer um desses meios datados uma versão contemporânea. A emergência das tecnologias eletrônicas, a semio e tecnodiversidade das artes e tendências da ciberarte são objetos de análise.

O corpo biocibernético e o advento do pós-humano, título do capítulo seguinte, divide- se em 7 tópicos, e dentro dos tópicos, mais subdivisões, para um maior esclarecimento desse capitulo, pois se trata de um capítulo bastante extenso porque fala da revolução digital entrando numa nova era. Para alguns, essa era trará consequências para a constituição da vida social e formas de identidade cultural tão profundas quanto foram as de emergência da cultura urbana mercantil no fim do feudalismo. Para outros, mais radicais, trata-se de um salto antropológico tão vasto quanto foi aquele que resultou da revolução neolítica. São discutidos os modelos das relações entre máquina e corpo humano, a cibernética de segunda ordem e o bioconstrutivismo, da analogia cibernética para o hibridismo do ciborg, o visionárismo ciberpunk, o advento do pós-humano, as múltipla realidades do corpo, o corpo simulado, o corpo digitalizado, o corpo molecular e entre utopia e a distopia.

O capítulo 9, voltado para A semiose do pós-humano, divide-se em 6 tópicos. Esse capítulo trata das novas tecnologias da informação e comunicação que, segundo Santaella, estão mudando não apenas as formas de entretenimento e laser, mas potencialmente todas as esferas da sociedade, por isso, a autora busca uma modelagem conceitual renovada. Também nesse capitulo discute-se a semiosfera, o reino dos signos e da cultura, cultura da mediação, o crescimento do cérebro, as máuinas sensoriais e as máquinas cerebrais e uma nova antropomorfia.

A psicanálise e o desafio do pós- humano, capítulo 10, tem por objetivo levantar algumas indagações sobre a questão da psicanálise frente às transformações aceleradas que, pelo menos nos últimos vinte anos, estão ocorrendo nos campos da economia, geopolítica nas relações indossolúveis da ciência com a tecnologia, na cultura em geral. Os 4 tópicos em que divide são os seguintes: o legado da psicanálise, o desafio do pós-humano, a psicanálise e a antropossemiose como antídotos e a psicananálise no vórtise das mutações.

O corpo vivo como suporte da arte, capítulo 11, trata da pintura como arena da ação (action painting) que evoluiu para pinturas no próprio corpo humano, uma ação sem tela, até o limite do corpo em si como suporte da arte, encenando, seja lá o que for, mesmo a inércia, como forma de arte. Divide-se em 5 tópicos: Arte e vida, Do gesto à contestação, A body art e as cruzadas femininas, Anos 80 e a irrupção da pós-modernidade, Anos 90 e o corpo tecnológico.

No capítulo 12, por As artes do corpo biocibernético, a autora quer significar as artes que tomam como foco e material de criação as transformações por que o corpo e, com ele, os equipamentos sensório-perceptivos, a mente, a consciência e a sensibilidade do ser humano vêm passando como fruto de suas simbioses com as tecnologias. Divide-se em 2 tópicos : O corpo na convergência das artes, as facetas das artes do corpo biocibernético.

Corpos carnais e corpos alternativos, tema do capítulo seguinte, discute como, de algumas décadas para cá, cada vez mais o humano passou a ser definido em relação aos sistemas cibernéticos. Os 3 tópicos dessa discussão são: Um fogo cruzado de opiniões, a ambiguidade do corpo no ciberespaço, A semiose da descorporificação em ambientes virtuais.

Finalmente, no capitulo 14, A arte depois da arte, o tema do fim da arte ou a morte da arte veio surgindo desde o século XIX. Instaurado no campo da filosofia, o próximo sinal dessa crise migrou para o interior da própria arte. Divide-se em 12 tópicos : O crepúsculo da arte na

filosofia, O suicídio da arte nas vanguardas estéticas, A arte como fênix, A coexistência de paradigmas na arte, O retorno do fim da arte, A arte depois da filosofia, Depois da arte, ainda arte, A militância do admirável, A estética evolucionária de Wagner Garcia, Amazing Amazon: rio pensante e Clothing Earth with mind: o apelo do admirável.

 

Foi publicado no: Centro Internacional de estudos Peircianos- https://estudospeirceanos.wordpress.com/resenhas/

CRISTIANISMO E MODERNIDADE

Para a geração, que saia da Segunda Guerra mundial na idade da adolescência, a vocação de historiador não nasceu nos bancos da escola, mas nos debates culturais e políticos, quicá na rua: como sair da crise que havia carregado nossas democracias e como incorporar a definição de um novo engajamento por um humanismo cristão? Nossas primeiras leituras, além de pensadores italianos tais como Benedetto Croce e Antonio Gramsci, eram Jacques Maritain e Emmanuel Mounier; nossa revista de referência era a Esprit. Nesse contexto, parece-me que a vocação mais alta a qual um homem poderia aspirar era a historia e seu estudo. A questão que nos colocávamos era: o modelo de vida ocidental encontrava- se em crise e dirigíamo-nos, impulsionados pelas novas ideologias, para uma nova liberação da humanidade, libertada e tornada adulta após as tragédias do passado recente, ou o cristianismo permanecia uma referencia e um elemento necessários ao renascimento da democracia? Em todos os casos a questão do fim da época da Contrarreforma estava colocada. Uma época da historia da Igreja que fora marcada, nos séculos da época moderna, por um vinculo histórico estreito com o poder. De todas as maneiras, as duas crises encontravam-se misturadas e, para mim, o tema do poder, da política, tornou-se central desde então: dali deriva a minha decisão – universitária, mas não somente – de optar pelo historia moderna, e não pela historia da Igreja, no momento de escolher minha disciplina de especialização; e eu permaneci fiel a esta decisão durante todos os decênios que se seguiram.

O  termo “modernidade” – observações necessárias para não cair em equívocos na leitura deste texto que deve ser metaforicamente sintético. A minha tese é muito simples: não existe apenas uma modernidade, mas ao menos duas. Em torno da metade do século passado delineou-se o fim da modernidade e grandes pensadores leram, a partir desta ótica, a realidade que lhes era contemporânea. Pensamos nas reflexões de Walter Benjamin, de Hannah Arendt ou, entre os católicos, no livro de Romano Guardini, Fine dell’epoca moderna (1949). Com a tragédia da Segunda Guerra mundial, a shoa e a bomba atômica, eles se deram conta de que a idade moderna havia terminado juntamente com a fé no progresso e na possibilidade de criar um novo mundo fundado sobre a razao; nas décadas seguintes, com a Guerra Fria, havíamos fingido que a modernidade continuava a viver, mas não era verdade. A modernidade morreu com as tragédias da metade do século e o Concilio Vaticano II de alguma maneira participou da sua conclusão: com o Vaticano II a Igreja catolica fez as contas com a modernidade, precisamente no seu ocaso. A fé no progresso cientifico e técnico era, até então, a base comum para a construção da convivência civil. Hoje, nos todos perdemos estas certezas; saímos todos da modernidade e nos encontramos diante de novos desafios e da necessidade de fazer novas escolhas.

Antes disso, a discussão dava-se entre aqueles que acreditavam que a modernidade nascera das luzes do século XVIII (com alguns lampejos precursores nos séculos precedentes) e aqueles – entre os quais me inscrevo – que retinham que ela era o fruto de uma historia mais longa e complexa, na qual o cristianismo ocidental jogara um papel importante, no plano do pensamento e no plano das instituições, para a construção da moderna ideia e realidade de liberdade, de direitos humanos e de democracia.

A partir exatamente dessas considerações puramente históricas deduz-se o diagnóstico segundo o qual a nossa civilização esta em perigo ou, em todo caso, esta se transformando em outra coisa se perde a consciência do dualismo de fundo que determinou as suas características, da distinção e da copresença da historia humana e da historia da salvação, da separação do poder, sacro e político, antes ainda que da divisão dos poderes. Penso que esteja claro que esta afirmação, baseada na observação das tensões continuas que dominaram a nossa historia, nao guarda nenhuma relação com o discurso sobre as raízes cristas ou hebraico-cristãs da Europa, que tenho por equivocado e instrumental.

Leia mais acesse: RH_160_-_Paolo_Prodi

Passagem : um retorno ao mar/ Nelo Pimentel

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PASSAGEM: UM RETORNO AO MAR

Abertura dia 29 de julho as 18.00h no Centro  Histórico e Cultural Mackenzie.

Acesso pelas ruas: Maria Antonia, 307 ou Itambé, 143

Prédio 1 – Higienópolis

 Parafraseando E.H.Gombrich, é licito afirmar que todos gostamos do belo exibido pela natureza e, além disso, somos gratos aos artistas que o preservam em suas obras.

A arte sempre é feita com um propósito, mas é o interpretante que, a partir do seu olhar, a conduz às mais variadas situações e definições, deixando-se levar pelo deleite da simples apreciação, e pela emoção.

NELO PIMENTEL é justamente um desses artistas que nos toma pela emoção e pela memória dos encantamentos, dados pela brisa da manhã nas areias quentes de Ilhabela; pelos barcos ancorados nas águas ocres e marrons do Rio da Prata (Argentina) e pelo Sol batendo dentre os mastros, dando-nos a sombra refletida das ondas calmas da Ilha ou, até mesmo, o verde das encostas das montanhas.

Sua pesquisa é inesgotável, sempre iniciando uma nova história, pelo passeio nos mais belos mares, mas sempre retornando com suas tintas azuis, verdes, amarelas, marrons, enfim , cores fortes, cores da vida. Vida esta que Nelo sempre vivencia em sua trajetória poética, surpreendendo-nos a cada pincelada, a cada cena reproduzida em suas telas. Elas não se exaurem no enquadramento que faz; seus recortes vão muito além dos limites físicos da obra, eles transbordam para o imaginário.

Os quadros de Nelo são marcados por sua serena simplicidade e calma, na claridade e solidez do seu mundo, pleno de movimento e luz. Ele reuniu nas telas o deslumbramento da natureza e, com isso, não há quem não se impressione.

Roseli Demercian (Loly)[1]

[1]Graduação em Pedagogia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduação em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Especialização no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo(MAC/USP) e mestrado em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Doutoranda em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; é curadora independente. (Site: www.lolydemercian.com.br; email: loly@lolydemercian.com.br).

 

Masao Ukon: encantamento de uma vida

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MASAO UKON: ENCANTAMENTO DE UMA VIDA

MASAO UKON nasceu em maio de 1931, no Japão. Sua mãe (artista plástica), desde pequeno, estimulou no jovem o gosto pelas artes, levando-o com habitualidade a museus.

Sua paixão, no entanto, foi despertada para outra modalidade de manifestação artística: o Jazz. Ele então aprendeu a tocar o pistom e criou, ainda na adolescência, seu próprio grupo de jazz.

Após a Segunda Guerra Mundial, como muitos imigrantes que chegaram ao Brasil, a família Ukon desembarcou em Porto de Santos no navio Santos Maru , 1955.

Masao, em pouco tempo, apesar da dificuldade da língua, se ambientou. Ele tinha uma voz universal, que era o seu instrumento musical: o pistom, o que lhe permitiu participar do filme “Heaven Knows, Mr. Allison”, dirigido por John Huston, no ano de 1957.

Apenas na década de 60, é que realmente o jovem Masao assumiu em definitivo sua inexorável tendência para as artes visuais, cedendo, para tanto, aos fortes influxos recebidos de sua mãe, Ikuko Ukon, amiga de Tomie Ohtake, Manabu Mabe e Wakabayashi. Ele sentiu, então, a necessidade de registrar, por meio de desenhos, seus amigos do jazz.

Para que isso fosse possível, precisava de uma técnica de registros rápidos, dos fugidios instantes vivenciados. Optou, com muita criatividade, pela técnica dos caricaturistas e chargistas, muito em voga e ascensão àquela época. Só eram necessários, portanto, um bloco de papel, uma caneta e pastel seco, nada mais.

Masao tocou num clube de Jazz e na Casa Universitária, situada na rua Artur Prado, ambas no romântico Centro Velho de São Paulo.

Na inseparável companhia do seu bloco de desenhos, ele sempre estava pronto para registrar momentos inusitados e inenarráveis de lugares, pessoas e amigos.

Foi em um desses shows na Casa Universitária, que ele conheceu sua outra paixão – Maria Antonia (sua futura esposa) – e integrou em seus registros mais dois componentes: sua mulher e seu filho (que nascera desse amor incondicional).

Participou das bandas Bourbon Street e São Paulo Dixieland Band, esta última formada por ex-alunos da Universidade Mackenzie; tocou na Opus2004, Capitu e Balaco Baco.

Sua técnica de observação dos momentos é de uma maestria ímpar, incomum, pois transmite a ideia de notas musicais arrastadas – como o jazz e o blues – em cores de tons baixos, dando ênfase às linhas e contornos, firmando ainda mais sua vocação para as artes. Quem ganha com isso não é o autor e sim as pessoas que ele vê e retrata.

São momentos marcantes de toda uma trajetória de sucesso e felicidade, como um encantamento de cada partitura virada, de cada folheada da vida.

Ele nos convida a descobrir essas equações de sua existência, que se entrelaçam no tempo, com as variantes da música e do desenho.

Essa bela e romântica história está longe de chegar ao fim. É um início de tantos outros recomeços. O que não é inalterado são seus desenhos, seu lastro, sua vida vivida intensamente, os enquadramentos dos desenhos e, neles, o descortinar da passagem de outras vistas, das memórias do passado, do presente e do muito que ainda está por vir.

Loly Demercian

 

Texto curatorial da exposição : Memórias guardadas

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Bruno Trochmann

Bruno faz um diálogo com o sujeito histórico e cultural da armênia, sendo que esse sujeito está encarnado nos objetos, nos acontecimentos.

A singularidade do seu trabalho está em seus índices, os elementos contidos em seu trabalho, que nos levam a pensar ou voltar ao passado, nos significados dos objetos expostos e suas implicações políticas e culturais.

A maneira rudimentar de representação, com a técnica lambe-lambe, nos remete às propagandas soviéticas do início de século XX, antes da diáspora armênia, com uma séries de colagens, sobrepondo-se com antigas fotografias armênias, além de gravações em cassete e discos de 78rpm de música do oriente médio, criando-se também colagens sonoras (uma linguagem muito usada nas décadas de 50 e 60, a Assemblage, que foi a ruptura já ensaiada pelo dadaísmo, cujo movimento deita raízes na Rússia ou pela música improvisada de Cage).

Para apreender a essencialidade dos trabalhos apresentados, o interlocutor deve estar impregnado de aspectos históricos e musicais, além de se deixar dominar pelos sentidos.

 

Loly Demercian

texto curatorial da exposição : Memórias Guardadas

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Ana Luiza Kalaydjian

A realidade existencial do que se apresenta nos quadros da Ana tem um aspecto muito importante para sua identidade. Ela deve ser apreciada, não na superficialidade do retângulo, e sim na sua profundidade.

É na profundidade que percebemos seus índices, seu processo de busca. Os trabalhos aqui expostos, representadas por figuras humanas, sem cor, sem brilho, buscando uma memória perdida, quase melancólicos, estão representados nas imagens escultóricas no chão, como corpos buscando o seu escopo.

A iconografia do sofrimento tem uma longa linhagem na história da arte. Ana fez do sofrimento sua busca, seu exemplo, seu tormento, num autêntico paradoxo. Se olharmos atentamente, ela evoca marcas do tempo, da busca incessante de sua identidade, talvez perdida no passado de seus entes queridos, mortos na diáspora.

O carvão e o café (cores frias pelas tintas) são ícones emocionais. O carvão, cor preta, combustível; o café, cor marrom, que, na armênia, representa a leitura da borra de café, isto é, ancestralidade e energia. Ambas as cores, apesar de frias, pesadas, representam ascensão, espiritualidade. É nesse ambiente melancólico que Ana encontra a luz e a vida, que foram tirados de seus ancestrais pela matança indiscriminada e cruel, com absoluto desprezo pela dignidade humana, pela dignidade de um povo, de uma cultura.

Loly Demercian

Convite da Ocupação Tucarena

convite final

A comissão para a preservação da memória do Genocídio do Povo Armênio da FUNDASP apresenta : Semana Cultural #Armenia100anos, no Tucarena

Dia 08 de Junho

18h00 Abertura da exposição Alak-Dan: Memórias Guardadas

com os artistas Ana Luiza Kalaydjian e Bruno Trochmann

20h00 Colóquios no auditório:

Os professores debaterão sobre as questões do Genocídio Armênio.

Prof.a Silvia Regina Paverchi:

A Armênia atual e a diáspora: questão do genocídio envolvendo trauma e assuntos fronteiriços.

Prof.Dr. Paulo Roberto Monteiro de Araújo :

Didi-Huberman: Memória como ação do ressurgir – a Matança.

Prof.Dr. Rogério da Costa Santos :

Biopoder e racialização: sementes de ódio no genocídio armênio.

Prof.Dr. Willis S. Guerra Filho :

Genocídio Armênio e a continuidade dos crimes contra a humanidade.

Prof.a Doutora Carolina Alves de Souza Lima:

O genocídio e a proteção dos direitos humanos

Dia 09 de Junho

 14.00h as 18.00h Leitura de borra de café com a artista Ana Luiza Kalaydjian

19h30 Dança e Coral:

Coral Vahakn Minassian

Grupo de Danças típicas armênias Kilikia

20h00 Palestras sobre o Genocídio Armênio:

Professor James Onnig

Dr. Philipe Arapian

Matheus Mekhitarian

Guilherme Markossian

Dia 10 de junho

 14h00 Visita monitorada com a curadora de arte da exposição, Prof.a Roseli Demercian com a presença da artista Ana Luiza Kalaydjian com desenvolvimento de atividades de ateliê.

Dia 11 de junho

Peça de teatro: 1915

grupo Arca

 

Sergio Milliet /resenha

imgresRESENHA DO ARTIGO DE ANTONIO CANDIDO

Livro : Sergio Milliet 100 anos- trajetória, crítica de arte e ação cultural.

Autor: Organizadora: Lisbeth Rebollo Gonçalves

editora:Imprensa Oficial

ano: 2005

 

Sergio Milliet muito sabiamente, e totalmente visionário, já implantava em suas críticas literárias e visuais a ideia de interdisciplinariedade e do sistema de complexidade.

Dizia ele: “Tenho fé em alguns fatos, acredito em muitas teorias, não aceito nenhuma doutrina inteira, porque tudo, e principalmente a razão, leva-me à certeza da relatividade das coisas, à convicção de sua complexidade e a idéia de que somente em campos muito restrito nos é dado pretender a uma conclusão definitiva”.

A complexidade social, segundo LUHMANN, está relacionada a um dado real e concreto, o de que, para o indivíduo e suas ações possíveis, o mundo apresenta-se sempre com muito mais possibilidades do que aquelas que ele pode realizar. Cada escolha gera uma seletividade que diminui essa complexidade e, ao mesmo tempo, aumenta sobremaneira o contingente daquilo que ficou excluído. Para Luhmann […] a sociedade é aquele sistema social cuja estrutura regula as últimas reduções básicas, às quais os outros sistemas sociais podem referir-se. A sociedade garante aos outros sistemas um ambiente, por assim dizer, domesticado, de menor complexidade (apud TRINDADE, 2008: p.26).

Os vários papéis sociais estão em constante interação. A vantagem do papel social reside no fato de ele estabilizar tensões e angústias, exatamente pela expectativa que se tem, em relação a esse processo, daquilo que podemos esperar dele (que pode ser algo positivo ou negativo).

Milliet, talvez por ter tido uma formação formal e acadêmica na Suiça no inicio do século XX, aos 14 anos, conviveu com personalidades de vanguarda do seu tempo, a obra desse ensaísta, escritor, poeta, crítico, sociologo, tradutor e pintor (que iniciou sua vida intelectual aos 17 anos) já tinha um pensamento interdisciplinar . E sabia que o sistema é falho, se não estivermos conectados à realidade e às condições sociais e culturais de um povo.

Ele não se prendia à militância politica, pois achava diferente das fórmulas reinantes. Mas tinha uma grande preocupação política, mas sem sectarismo.

Em 1930, com relativismo, decorrente da sociologia norte-americana, Sergio Miliet reorientou e reforçou sua convicções. Esse método de se observar os sistemas culturais, sem uma visão etnocêntrica da sociedade vigente, ou seja, realizar a observação sem usar nenhum meio ou parâmentro pré concebido pela cultura ocidental, norteou o pensamento de Milliet. Com isso realizou a avaliação sem privilegiar os valores de um só ponto de vista, estruturando o corpo social a partir de suas próprias características.

Milliet extraiu daí uma espécie de filosofia relativista e uma visão muito humana, ao mesmo tempo fervorosa e dubitativa, cheia de crença na explicação sociológica, mas reticente em relação a qualquer conclusão rígida.

Segundo Antonio Candido, estas posições poderiam tê-lo levado a certa inconsequência, isto é, a uma abertura de tal modo ampla que o ato crítico se tornaria incaracterístico, perdendo-se na mera constatação. Isto não ocorreu, porque ele assumiu a abertura da mente e do gosto, o relativismo, o ceticismo programado como uma espécie de ato de fé.

Para Milliet: “O cepticismo[…] traz em seu bojo o construtivismo, porquanto somente poderá se edificar solidamente aquilo que, antes de servir de alicerce, tenha passado pelo crivo miúdo da dúvida”.

Essas convicções, ligadas ao seu modo de ser, contribuiram para definir o corte ao mesmo tempo altivo e modesto da sua atitude mental e da sua ação(cf.Candido, op.cit.,35). Com independência, coragem, senso de responsabilidade, grande capacidade de estimular, a despeito da severidade com que também costuma temperar o seu apoio aos novos.

Se pegarmos as ideias críticas, sociais e culturais de Bourdieu, perceberemos o quanto Sergio Milliet era visionário, porque ele já defendia um pensamento transdisciplinar, no qual se fazia necessário reconstruir o processo de construção do cânone, a hierquização que preside os sistemas de classificação em gêneros, escolas e estilos, frutos de disputas que acabam sendo naturalizadas. A micro história própria do “campo” é o pré-requisito para a interpretação.

Loly Demercian

 

Bibiografia consultada:

Revista Cult 128 ano 11

BOURDIEU, Pierre. O amor pela Arte. São Paulo: Edusp, 2003.

– TRINDADE, André Fernando dos Reis. Para entender Luhmann e o direito como sistema autopoético. Porto Alegre: Livraria do Advogado