Exposição “Eu, o outro e o meio”

LIBERDADE DE INÍCIOS
Loly Demercian, 2022

Segundo o teórico dinamarquês Simon Sheikh, o campo da arte transformou-se num campo de possibilidades de intercâmbio e análise comparativa. Ele tem se transformado numa área de pensamento, de alternatividade e pode agir como intermediário entre diferentes pensamentos e modos de percepção, como também entre posições e subjetividades.
Nesse sentido as artistas Debora Knittel, Eliane Matos, Lilian Grunebaum, Mariane Chicarino e Bruna Rinaldi se reuniram em tempos de pandemia, juntamente com o professor Dimitrov, e puseram em prática suas experiências cotidianas e seus modos de ver os impactos causados pela pandemia, em expressões artísticas, cada uma com sua especificidade. Não mais em uma produção artística, mas na articulação de pensamentos que percorrem a comunicação visual – não exclusivamente – de pensamentos sutis no contemporâneo.
As artistas tiveram como norte a memória e lembranças de um tempo que passou ou de um tempo que ainda tende a ficar, Como destacou Walter Benjamim, […] a lembrança é o complemento da ‘vivência’, nela se sedimenta a crescente auto alienação do ser humano que inventariou seu passado como propriedade morta. No sec XIX, a alegoria saiu do mundo exterior para se estabelecer no mundo interior. A relíquia provém do cadáver, a lembrança, da experiência morta que, eufemisticamente, se intitula vivencia.
As produções das artistas se deram fundamentalmente sob os impactos da pandemia, procurando dar formas às suas culturas e ancestralidades, resultando os pensamentos mais profundos. Criaram-se produções estéticas nos mais variados conceitos artísticos. Uma verdadeira catarse de sentimentos e aprofundamento em suas pesquisas. Suas singularidades são explícitas na medida certa.
A artista Debora knittel psicopedagoga, já escreveu alguns livros infantis. Em suas pesquisas explora matérias naturais, como, por exemplo, pigmentos vegetais sobre fibra de bananeira.  Como se os materiais tivessem uma memória de existência, ou seja, a impermanência das coisas nesse mundo. Deseja sempre estar em contato com essas questões de coexistir neste mundo e não separar, estar junto e em pleno contato com a ecologia, Krenak, em seu livro “A vida não é util“, disse que: […] nossa ignorância em não entender e tratar a Terra como um organismo vivo, com uma linguagem própria com a qual devemos interagir para além do consumo predatório de suas riquezas.
 A artista complementa: “Meu olhar e coração transitam pelas tradições ancestrais, pelos saberes dos ciclos, pelas águas dos rios e dos mares, pelas matas e florestas, pela amplitude do céu, por todos os cantos da Terra que revelam a teia dessa magnífica biodiversidade de macro e microcosmos”.
A artista Lilian Grunebaum formada em Arquitetura e Urbanismo. Trabalhou por anos como designer de interiores. Sua pesquisa atual tem como referências históricas e o confronto com a herança da tradição judaica, abordando memórias individuais e expandindo-as para memórias coletivas, tão presente na arte contemporânea. Em seu trabalho “Tecendo trajetórias”, 2022, e a instalação “União, 2022 “, que são tranças e fios , tendo como referência de certos procedimentos de Tunga, quer  produzir uma analogia ou encontro de energias esculturais e energias dos ancestrais, introduzindo uma tensão entre imagem e a matéria que coloca em suspenso o significado que temos do objeto.
A artista Bruna Rinaldi é estudante de psicologia e em suas pesquisas atuais apresenta composições em monotipias que trabalham a fragilidade das narrativas cotidianas, dialogando e transpondo as impressões de uma permanência e impermanência transitória. Impermanência, porque seu objeto investigado foi o plástico, muito falado e discutido durante a pandemia, como se o plástico fosse a parede entre as pessoas (o material plástico que é descartável, que é volúvel).
Em seu trabalho “Qual o meio possível do toque”, 2022 (uma instalação), Bruna busca analisar a potencialidade das formas e das transparências, ao mesmo tempo em que demonstra uma consciência e atenção às forças estruturais do campo bidimensional e tridimensional do suporte.
Eliane Matos se formou em Design de Moda. Sua criatividade de construção estética é oriunda de uma perspectiva espiritual. Situando na história da arte, verificamos que Eliane tem como norte a pintura como processo, partilha a necessidade de se expressar através do ato imediato e espontâneo de pintar. Como representantes desse modo de ver a pintura destacam-se:  Rotko, Pollock e Newman, na Action Painting, o gesto e a pincelada , no caso da Eliane o dedo, expressam-se mais a si mesmos do que a qualquer outro significado que lhe seja exterior; o processo de pintar representa o conteúdo da pintura.
A artista Mariane Chicarino é formada em publicidade e marketing, mas sua verdadeira paixão sempre foi a arte que estudava e desenvolvia em paralelo, e à qual hoje se dedica integralmente. Em suas pesquisas atuais, Mariane observa seu cotidiano, a vida trivial, a cultura pop como manifestação artística. Desde as colagens, as pinturas, as sobreposições de imagens, as cores, cada figura em seu quadro representa alguma coisa, segundo a cultura pop. A colagem revela três coisas, a saber: primeira, um misto de fascínio e de ironia em relação aos símbolos; segunda, o significado da colagem como típica da POP, derivada da prática cubista, dadaísta e surrealista; terceira, a inteligência e a sofisticação de uma composição repleta de alusões e de ambiguidades.

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