Exposição Mistura confusa de seres que o acaso parece ter aproximado- UNESP

Mistura confusa de seres que o acaso parece ter aproximado

O nome da exposição poderia ser sua própria sinopse, afinal, ela reúne mais de trinta artistas que mal se conhecem pessoalmente. O título também é uma citação do botânico Michel Adanson (1727-1806) em seu Curso de História Natural (Cours d’histoire naturelle). No texto de 1772, o autor fala da dificuldade em conhecer e classificar os seres da natureza. No início de 2020, concomitante ao início do período letivo do curso de Artes Visuais no Instituto de Artes (IA) da UNESP, o ser humano se viu vulnerável diante de um vírus criado ao acaso pela natureza e desconhecido pela ciência. Foi assim que a turma de ingressantes de 2020, que compõe o quadro de artistas desta exposição, foi separada depois de poucos dias de convivência.

O ensino remoto é um dos desafios mais difíceis, dentre os inúmeros, impostos por uma pandemia viral. Em abril de 2021, esse ainda era o cenário quando iniciaram-se as aulas da disciplina Fotografia Química com Lucas Gervilla. Como transpor para o ambiente digital atividades artísticas que pressupõem a prática coletiva? Apesar de faltar resposta a essa pergunta, não houve a falta da criação artística. Sem o acesso ao laboratório de fotografia do IA, o plano de ensino teve que ser totalmente alterado e passou a ser construído coletivamente. A impossibilidade de encontros presenciais na Universidade foi substituída por apresentações dos processos artísticos pessoais onde todo o grupo pode compartilhar, através de celulares e webcams, seus espaços e seus trabalhos mais diversos.

Adanson se referia à natureza quando disse a frase título. A natureza é uma mistura confusa de seres que nada, além do acaso, parece ter reunido: em um lugar uma violeta nasce na sombra de um carvalho; em outro, os peixes no lago se confundem com as plantas. Essa mistura é tão geral e multiplicada que parece ser uma lei da natureza – diz Adanson. Durante as aulas remotas, as técnicas fotográficas, como revelação e ampliação, que seriam feitas em laboratório, deram espaço para discussões sobre autorrepresentação, memória e nostalgia. Após alguns encontros, a fotografia deixou de ser a única linguagem artística abordada. As obras foram incorporando outras práticas como pintura, aquarela, escultura, vídeo, etc. A variedade de temas e técnicas utilizadas refletem a diversidade de maneiras de lidar com uma adversidade em comum.

A exposição aqui apresentada traz à CasaGaleria as obras produzidas principalmente entre abril e outubro de 2021. Cada trabalho é um exemplo de perseverança no fazer artístico de uma geração que tem a oportunidade de expor seus trabalhos pela primeira vez; unidos por uma natureza em comum ainda a ser compreendida.

Lucas Gervilla e Rafael Augusto


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