Exposição Claro da noite, entre terras e céus


Curadoria: Loly Demercian

Maria Luiza Mazzetto e Sheila Kracochansky, em suas pesquisas atuais, resgatam um ambiente cujas fronteiras entre o ser humano e a natureza desvelam uma estranha familiaridade entre si.
Maria Luiza Mazzetto questiona a atuação humana no mundo perante o meio e a relação afetiva com as plantas. Sua prática aborda um universo de ficção acerca do mundo natural vivo. São construções ou apropriações de cenas que podem aludir a arranjos, florestas, fundos de mares ou o interior de um organismo vivo.
O trabalho “Welcome to my jungle”, 2021 (cujas partes simulam uma grande floresta), faz lembrar obras do século 19, do sublime romantismo. Sentimo-nos pequenos diante do espetáculo da natureza.
Seu objetivo é nos lembrar que as florestas estão sendo destruídas e o legado do homem, tal como se verificou com o romantismo, está sendo transformado em artificialidade. O próprio homem, mesmo em face da sua finitude, manipula biomas, cruzamentos de espécies vegetais, cria transgênicos e torna o mundo incerto e ambíguo.
O trabalho “Entre Terras e Céus”, “Bicho”, de 2019, é formado pelo agrupamento de pequenos objetos de formas orgânicas, moldados em biscuit e dispostos em acúmulo sobre um chão. Eles podem se parecer com fragmentos do mundo animal ou vegetal, mas podem também ser confundidos com pétalas, flores ou peles; ovos ou sementes; colmeia ou coral; unhas, dentes ou espinhos; galhos ou ossos; frutas, tumores ou órgãos; raízes ou artérias.
Vemos isso nos seguintes trabalhos: “O cordão e o pedúnculo“ (fotografia); “Sin violetas y mercedes (vídeo) e nos desenhos de observação do ”Alho”, 2018. Segundo a artista […] essas semelhanças nos fazem lembrar que seres vivos, animais ou vegetais, são feitos da mesma coisa, uma só matéria […]. Esse trabalho é uma metáfora para uma proximidade entre a vida e a morte. Quanto mais longa ou intensa é a vida, mais iminente é a morte.

Sheila Kracochansky, por sua vez, trabalha com parâmetros entre transparência e a opacidade, introduzindo valores intermediários. Esses valores são feitos por bordados e pedras em tecidos, como na Roma antiga onde a pintura e escultura se aproximavam da realidade do cotidiano. Uso do ladrilho e mosaicos, além de cubos de pedras ou vidros que produzem profundidade utilizada para contar histórias (nas igrejas).
O modo como a história é contada mostra ao espectador que algo milagroso e sagrado está acontecendo. Na série “Contos”, 2019, cada bordado conta uma história. No trabalho “Claro da Noite”, 2018, sua pesquisa foi mais a fundo na questão da própria natureza das coisas. Na Grécia antiga os estoicos consideravam a grande ordem universal na exaltação da natureza. Viver em harmonia com a natureza permite estabelecer a estrutura do mundo.
No período em que morou em Lisboa a artista encontrou algumas pedras, já escolhidas e ordenadas como suporte, e por cima delas colocou uma seda. Durante a noite as pedras foram molhadas com uma infusão de chá, café e açafrão; formaram-se, dessa forma, veios no tecido, criando-se uma harmonia incrível na estrutura do mundo sensível e ações do homem. Dentro dessa pesquisa surgiu também o trabalho “Quase Branco”, numa fusão dos seres, sonhos, pedras e tecidos.
Essa mesma técnica é identificada nos trabalhos “Gêneses”, 2017, série da mitologia pessoal, e “Pedras das Dunas”, 2016. Nas observações do movimento do mundo, Sheila desvela os fenômenos da natureza, criando o trabalho “Fragmentos da cor”, 2019. A série das transparências dos tecidos transforma o mundo dos fragmentos em ordenação. Desse modo, ela vai além da singularidade da arte e dos suportes para construir formas no espaço dos tecidos.

Sobre as artistas :
Maria Luiza Mazzetto nasceu em Ribeirão Preto em 1977. Vive e trabalha em São Paulo. Formou-se em arquitetura pelo Mackenzie, cursou artes dramáticas no Celia Helena, história da arte com Renata Pedrosa, ilustração com Laura Teixeira, Fernando Vilela e Odilon Moraes, leituras e escrita acerca do seu processo criativo com Nancy Betts, Márcio Harum, Sandra Lapage e Carlos Pileggi. Participou de grupos de acompanhamento de projetos com Monica Rubinho, Sydnei Philocreon e no Hermes Artes Visuais. Integrou, junto com outros 7 artistas o Vão Espaço Independente de Arte. Participou de alguns salões, como o SARP, o de Jataí, o Programa de exposições do MARP entre outras exposições coletivas. Realizou 3 exposições individuais: Procura, no qualcasa, em parceria com o Hermes Artes Visuais, Interstício, na sala da praça e Dentro do Corpo, durante a temporada de projetos do Paço das Artes de 2019.

Sheila Kracochansky nasceu em 1963, em São Paulo, cidade onde reside e trabalha. É graduada em moda (1984, Studio Berçot-Paris), pós graduada em Comunicação de moda (2017, IED Instituto Europeo Di Design – SP). Participou do grupo de estudos e arte ministrado por Marcelo Salles na Casa Contemporânea SP. Participa atualmente do grupo de estudos e discussões de projetos de arte, No Hermes artes Visuais, sob orientação de Carla Chaim, Nino Cais e Marcelo Amorim.
Participou de workshops e cursos abertos relacionados a arte, História da Arte, desenho e bordado em lugares como museu do Louvre, Faculdade des Beaux Arts- Paris; Atelier La Grande Chaumiére. Também com artistas como Thais Beltrame, Alexandre Heberte, Renato Dibb. Participou do grupo de Novas Metodologias de Pesquisa da Arte, na Unesp. Participou de exposições coletivas: Feira CHACO- Chile, Anatomia de uma convivência – Galeria Rabieh, São Paulo, Baralho – Hermes Artes Visuais, São Paulo 2018 , Mutações – Pinacoteca – Fundação Pró-Memória, São Caetano do Sul Almost White – Hangar, Lisboa, Portugal entre outros.

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