Exposição Afetos em Paisagens

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O tempo tem memória?
As percepções do cotidiano passam com tanta velocidade que se dispersam em nosso olhar; passam sobre as coisas, e tudo se torna autômato. Qual paisagem teria nossa memória num mundo onde o tempo social é acelerado? Qual é a perspectiva das coisas que tem o nosso olhar? O que percebemos e o que nos está afetando?
Bergson, quando fala em perceber as coisas, diz que mesmo quando o objeto não mais existe naquele lugar, não é o vazio ou o nada e sim a ausência de tal objeto, o qual esteve aqui antes mas se acha agora em outro lugar. Ele deixa atrás de si o próprio vazio. O que ficaria nessa memória, senão o afeto? O tempo é uma ilusão, sua memória são nossas lembranças que se desdobram de modo involuntário. Nós somos a memória, vivemos da memória. O afeto, faz dessa exposição um deslocamento de paisagens que estabelece como núcleo da narrativa; a materialização por meio das vivências e das histórias singulares das artistas. A própria existência como processo e a metáfora como forma de conexão com o mundo.
A artista Ieda Mercês, com o trabalho “Do real à ideia: paisagem invisível” (2019/2020), reflete um estado de espirito onírico, uma autêntica embriaguez dos sentidos. De longe, vê-se uma profunda vermelhidão, denotando um vulcão ardente. Como ela mesmo diz: […] um estudo que vislumbra cenários ocultos a partir de uma geografia da ilusão. Suas memórias se manifestam como um diálogo com sua imaginação, uma paisagem do invisível.
A artista Maria Fernanda Lopes, com o trabalho “Risco, 2020”, brinca com essa paisagem imaginária, porque ela parte para uma desterritorialização do desenho, das linhas, dos planos e se expande para os conceitos da escultura, projetando uma certa animação no espaço, pois o nosso olhar em ângulos diferentes, as linhas e os planos se transformam em outros desenhos espaciais, redimensionando o lugar, articulando os fios estendidos em novas composições. Temos um quadrado preto de papel colado na parede, dando a impressão de que estamos vendo um desenho em uma superfície, mas, na verdade, esse mesmo desenho está no espaço.
Uma desconstrução do desenho como o entendemos. A composição das linhas contrasta com a parede, elas se projetam como sombras, uma estrutura paralela à parede. Tais estruturas habitam um vazio. Ela brinca com o tempo e a memória, porque as linhas constroem modulações espaciais diferentes ao trajeto do observador. Uma arquitetura que não fixa domicílio, porque a toda hora está mudando, permanecendo na memória de quem a percebeu.
Seguindo essa linha do imaginário, das paisagens invisíveis, a artista Simone Prado, com os trabalhos, “Caixa aberta, 2014 e Escova de aço, 2014”, associa a força da mulher com a vagina, que denota uma sexualidade no processo do imaginário. Em caixa aberta, a vagina é feita de veludo preto com uma escultura de Rodin, o Pensador dentro dela. O veludo preto lembra ousadia, delicadeza, símbolo da sensualidade, mas no meio uma escultura branca, uma brincadeira da artista, que tem uma conotação da inteligência, que a vagina tem poder.
Segundo Deleuze, uma potência, como agenciamento do desejo. Ela também insere no trabalho nove escovas de aço, amassadas no meio, em forma de vagina, estabelecendo uma verdadeira antinomia com a delicadeza. As noves escovas significam os meses de gravidez, nada sensual, e sim a força da mulher em parir, de dar à luz, de procriar.
A artista visual e performer Rapha Dutra, por sua vez, nos trás quatro fotografias no seu trabalho: “Meu Afogamento é o meu batismo” e “Corpo- intercessão”. O conceito das fotos e seu processo artístico destacam trechos do seu processo de vivência corpo e gênero. Nas fotos do “Meu afogamento é o meu batismo”, ela poderia estar viva, mas não estava vivendo, é uma singularidade da artista de traçar representações estéticas da feminilidade na incessante busca de ressignificar o conceito de feminilidade dentro da cisnormativa. O segundo trabalho é uma metáfora acerca de experiências de autoconhecimento através da sexualidade. Qual proporção terão meus órgãos sexuais a partir do momento em que os costuro, tampo, tiro do contexto? No que eles se tornam? Quando nos valemos de parâmetros cis para identificarmos um gênero, estamos centrados no binarismo (homem/mulher pênis/vagina), no entanto ao efetivar a costura essas denominações são elididas. Esse trabalho discute a cisnormatização do gênero masculino e do gênero feminino através do aparato biológico. Para artista, o reconhecimento de gênero resultaria não de um instante, tal como a experiência biológica, mas de um longo processo de conhecimento de si corpo-inteiro.
A artista Marcia Gadioli, na série “Memoriar”, usando papel de restauro, transfere imagens referentes à convivência pessoal, em camadas e mais camadas, representando o tempo. Essas mesmas camadas diluem as imagens, por estarem sobrepostas ou terem pouca definição, representando o estado de memória, a deriva urbana.
A artista Nádia Starikoff, nos presenteia com jardins da série “Cápsulas”, carregadas de emoções nas quais foram encapsulados memórias, numa dinâmica inconsciente “entre os nós, e entre nós”.
Marietta Toledo, nos apresenta trabalhos atuais e antigos. Os atuais “Estampas em Amarelo de Santana, 2020 e Pelúcia Branca da Barra Funda, 2020”, ela pesquisa e experimenta na tapeçaria as texturas, cores, volumes e formas. Essa técnica é carregada de ancestralidade e, ao mesmo tempo, desperta o frescor da contemporaneidade. Ela se utiliza da talagarça para bordar, bem como da escultura de tecidos para experimentar os volumes em formas orgânicas. Já os trabalhos realizados em 2018 e 2019, inspirados em sua avó, o tricô e crochê, uma prática manual ensinada nas escolas da década de 70, e culturalmente ensinada de avó para mãe – e assim de geração em geração – Marietta procurou tornar contemporâneas essas práticas, trazendo em forma de escultura e pinturas feita de crochê.
E, por fim, a artista Ana Carmen Nogueira, em seus trabalhos de encáustica, “Tempo da Delicadeza, 2020”, apresenta um recorte de imagens de mulheres de sua vida, que de alguma forma foram importantes no seu crescimento e participaram de momentos do seu dia a dia. Olhando para o passado, com essas memórias de vida, percebeu que o tempo passou e ela se descobriu madura. Percebeu a poesia nos gestos das fotografias e as eternizou na encáustica.
Como diz Deleuze, o problema não é o de uma presença de corpos, mas o de uma crença capaz de nos devolver o mundo e o corpo a partir do que significa sua ausência. Dessa forma se descortina a presente exposição.

Loly Demercian

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