Andre Araujo- Na Danada: O esgar do crânio nu


Sobre o artista

A Casagaleria e oficina de arte Loly Demercian tem o prazer de apresentar NA
DANADA:
o esgar do crânio nu, a nova exposição de Andre Araujo. O artista exibe
obras em escultura, pintura, livro de artista e vídeo imposta por temas como corpo,
erotismo, sexualidade, política, violência e morte. Baseando-se em referências
diversas da literatura e da música os trabalhos propõem narrativas fragmentadas,
apresentadas em um fluxo de consciência que convocam o público a refletir sobre a
irracionalidade reinante do país e do mundo no momento atual.
Desde o final dos anos de 1980, Andre Araujo desenvolve uma ampla pesquisa
sobre a violência, o medo, o erotismo e a morte através de projetos que já passaram
por Miami, Karlsruhe, Avanca, entre outras. Seu interesse pelo Punk e suas
temáticas volta-se tanto para investigações filosóficas sobre o corpo e suas variantes
(fragmento, grotesco, abjeto), como também pelo corpo a ser manipulado no âmbito
político, o que vem levado à ascensão de governos autoritários em várias partes do
mundo.
O aspecto onírico ressoa na pintura Fluxo-floema (2019), obra homônima ao livro
de Hilda Hilst, publicado originalmente em 1970, onde a escritora apresenta uma
linguagem fragmentada com passagens que mostra um corpo grotesco e abjeto, e
que Andre se inspirou, ao criar uma pintura produzida em um fluxo de consciência
onde as imagens são apresentadas de forma vertiginosa e agressiva.
A exposição promove a transposição dos personagens do livro, seus ambientes e
seus corpos fragmentados para o atual contexto do país, apresentando corpos de
forma metafórica através de alegorias de animais e plantas do bestiário de Hilda
Hilst, fazendo uma relação direta entre a palavra e a imagem. O artista atribui as
pinturas a alcunha de Ruiska, Lázaro, Osmo, Crasso, Clódia, nomes dos personagens
de Hilst, borrando os limites entre ficção e realidade. Andre faz pinturas sobre tela
que mesclam a clássica linguagem expressionista com uma contaminação da
linguagem contemporânea onde fragmentos urbanos são deslocados e colados na

tela como rastros, para revelar uma narrativa perversa, permeada pela violência.
Seres antropomórficos com falos e vulvas aparecem em meio a um vermelho-
sangue, indicando a violência da desigualdade e das tiranias do ser humano.
O vídeo NA DANADA: o esgar do crânio nu (2019), homônimo ao título da
exposição, em parceria com a diretora Simone de Paula Rêgo, ocupa uma instalação
na Galeria. Projetado em loop sobre uma pintura, e com duração de 06:00 minutos, o
filme indica em sua própria estrutura referências ao livro Fluxo-floema de Hilda
Hilst ao apresentar uma narrativa fragmentada e em fluxo de consciência onde
apropriações de imagens de diferentes lugares se fundem com fotografias e
animações. Esse procedimento passa pela a ideia de colecionismo. Ao colecionar
imagens e objetos, o artista coletor retira o objeto ou a imagem de suas funções
utilitárias e lhe atribui um outro caráter que é estabelecido com os demais
componentes da coleção. Procedimento que também remete à antropofagia cultural
presente no Manifesto Atropofágico (1928) de Oswald de Andrade. A imagem da
palavra também é presente no vídeo, como trechos do livro de Hilst e um poema de
Wagner Moreira, extraído do livro Solos (2015). A vídeo-pintura-instalação também
remete às gravuras de Theodor de Bry, Human cannibalism (1593) para o livro de
Hans Staden Duas Viagens ao Brasil (1557). A imagem do vídeo projetada em uma
pintura alude à pratica dos antigos profetas que liam o futuro nas vísceras dos
animais sacrificados. Por meio das vísceras era possível interpretar a ordem do
universo e compreender as mensagens do invisível por meio de sinais. Pelas
imagens do vídeo, projetadas nos órgãos, o expectador tem uma visão niilista de um
futuro incerto.
Além dos conceitos de fragmento, grotesco e abjeto, o vídeo NA DANADA
também está calcado no pensamento agambeano de Tanatopolítica. Giorgio
Agamben diagnosticou práticas características do estado de exceção no âmago de
governos democráticos, percebendo a exceção como uma das tecnologias de
governo mais alastradas em nosso tempo. Exceção e democracia, hoje, não são um o
avesso do outro, mas convivem numa contiguidade própria a sistemas mantidos por
simbiose. A exceção instala-se como uma técnica eficaz na democracia que nos
governa legalizando a morte e indivíduos “matáveis”: a tanatopolítica.

Andre usa o arquétipo do cadáver, cadere, caído, a imagem do corpo grotesco,
velho e próximo à terra. A imagem da caveira também é elencada em diversos
momentos como a imagem de um corpo eterno, a imagem da memória, tão prezada
ao pintor.
A imagem do corpo, nos trabalhos de Andre, também está vinculada não ao medo
da morte, pois essa é certa, é rainha, chega a qualquer hora, mas está associada à
angústia de viver, do corpo exposto a um existir doído e injusto.
O medo também se reflete nesses corpos representados pelo pintor, mas o medo
da opressão e da violência vivida em tempos onde o homem subjuga o próprio
homem. Com isso, tem-se, nas obras, a imagem do grito, o grito de terror e de dor.
A exposição se apresenta de forma intermidiática pois contém dentro de seu corpo
artístico o vídeo, a performance, a pintura, animação e a palavra. E funciona como
um exercício político colocando em pauta o canibalismo cultural, a política de
exceção e violência, e a ambição e descaso das grandes corporações com o aval do
Estado, o que gera a morte. O voto, o ex voto, o sufrágio e a democracia aliada ao
estado de exceção. Corpos dóceis.
Assim, ao estabelecer nesta colagem, uma ligação da arte contemporânea com o
cinema e a literatura, Araujo promove novas leituras, novos olhares e novas
significações das imagens, importantes para o artista e para o expectador que por
elas é atravessado. Andre sugere aos visitantes desenvolver infinitas interpretações
ao acumular fragmentos, sequenciais ou não, e ressignificar as imagens,
possibilitando que estas tenham sentidos variados, livre de definições e livre para
interpretações.

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